NAZA
Num terraço de Tel Aviv, à noite, um agente israelense confirma que achava divertido bombardear um prédio em Gaza: “Sim, era divertido ver a missão cumprida”. A indiferença daquele homem soa como resultado de uma lavagem cerebral levada a cabo pelos serviços de inteligência israelense. Após o terrível ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, as chamadas Forças de Defesa de Israel adotaram a noção de que “não existem inocentes em Gaza”. O resultado é o que ouvimos deles próprios em NAZA.
Baseado em reportagens do jornal britânico progressista The Guardian, que chancela a produção, NAZA é assinado por Yuval Abraham e Rachel Szor, dois dos realizadores de Sem Chão (No Other Land), vencedor do Oscar de documentário de 2025.
O filme é extremamente simples: 24 militares e agentes da inteligência militar israelense se dispõem a se sentar diante de Yuval e descrever o sistema conhecido como NAZA, que admite “danos colaterais” quando é o caso de matar um suspeito de ligações com o Hamas. De resto, o filme mostra imagens sempre noturnas de Tel Aviv vivendo uma relativa normalidade. Alguns excertos de televisão pontuam a forma como os israelenses recebiam as informações sobre a reação do governo Netanyahu.
Filmados na penumbra, com a aparência e a voz alteradas digitalmente, e a caligrafia borrada para não permitir identificação, os entrevistados anônimos relatam detalhes horripilantes. As vítimas em Gaza, fossem elas homens, mulheres ou crianças, passavam a ser meros números: NAZA 15, NAZA 20, ou mesmo NAZA 500. Um deles conta que 500 civis foram mortos de uma só vez por causa de uma única pessoa identificada como alvo.
Como nos pelotões de fuzilamento em que vários homens participam para que a culpa não recaia sobre um deles especificamente, aqui a responsável pelas mortes passa a ser a inteligência artificial. O planejamento dos ataques e a localização dos alvos são feitos por IA. Os homens que apertam os botões se consideram meros técnicos. Alguns se referem a “eles” como se não fossem parte do sistema.
A crueldade se revela por inteiro na escolha das casas de família como alvos dos ataques. Com cada casa e telefone de Gaza monitorado pelo sistema, espera-se que “o papai volte para casa” e então jogam as bombas matando toda a família. A lógica inverte a ética: “Quem decidimos matar é considerado terrorista”. Assim foram destruídos bairros inteiros à distância, como num videogame. Para os moradores, ou evacuam a região ou morrem. Se houver “erros”, a culpa é da IA.
Aos relatos de destruição em massa, por bombas ou incêndios criminosos, o filme contrapõe imagens de arranha-céus sendo levantados em Tel Aviv. Quando se fala de matar civis correndo atrás de comida porque cruzaram uma linha invisível de controle israelense, vemos a vida confortável nos apartamentos da maior cidade de Israel.
Dois depoentes revelam alguma crise de consciência. Um deles até mesmo concorda que há um genocídio em curso e reflete sobre a condição atual de Israel frente à memória do Holocausto. Mas a maioria simplesmente “confia no sistema e faz o trabalho”, como expressa um deles. Trata-se de uma função técnica, um planejamento profissional que não admite emoções nem sentimentos – mesmo quando ouvem as conversas de pessoas que vão matar logo em seguida ou veem cachorros comendo corpos insepultos nas ruas de Gaza. “É um sentimento da sociedade”, justifica outro. Assim foram mortas cerca de 73.000 pessoas num período de três anos.
A devastação de Gaza ecoa outras destruições que o documentário recupera em imagens de arquivo. Já nos anos 1940, a criação de Israel implicava a demolição de centenas de bairros e vilarejos palestinos, junto ao deslocamento de seus moradores. Essas estão entre as poucas cenas diurnas de NAZA. As outras vêm no final, como uma evidência angustiante da carnificina chamada por Israel de simples “danos colaterais”.
NAZA ganhou o Prêmio Especial do Júri no Festival de Veneza, onde foi longamente aplaudido de pé. Desde então, está sendo lançado em cerca de 50 países e tem recebido críticas do governo israelense. Um ministro pediu a revogação da cidadania dos diretores por “traição”. Netanyahu rotulou o filme de “difamação”. A partir do final de novembro, estará disponível gratuitamente no site do The Guardian. Eu recomendo não esperar até lá. Esse documentário é um marco histórico a ser visto o quanto antes nos cinemas.
>> NAZA entra em cartaz nesta quinta-feira, 1/10.
Trailer legendado em espanhol:




